O Nome "Deus" é pagão?

Postado por Erike Couto

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Decidi publicar este post por causa de três coisas. A primeira é que ele estava no rascunho desde o ano passado, mas nunca havia terminado (sempre tenho muita coisa no rascunho rsrs). Segundo, presenciei desde que estive na minha adolescência em Salvador e atualmente, de forma cada vez mais constante, muitos que se dizem cristãos rejeitarem doutrinas centrais indo em direção a verdadeiras heresias sobre Deus, quem Ele é e como Ele age na Criação. Uma destas heresias é a rejeição da Trindade. Isso por si só é um perigo muito grande, pois essa doutrina é a explicação de como Deus se revelou ao mundo através de Jesus, Filho de Deus, e como Seu Espírito age em nós hoje, continuando a obra de reconciliação de Deus com o Homem. Mas, se já não bastava a rejeição a esta doutrina cristã, alguns grupos estão se direcionando para um lado ainda mais extremo (o terceiro, e principal, motivo do post): alguns grupos anti-trinitarianos também estão rejeitando o próprio substantivo para "Deus" no português, ou em qualquer língua que não sejam aqueles substantivos da língua hebraica que se refiram a Deus ou títulos de características dele, como "Eterno". Eles usam uma justificativa para ambas as rejeições: estes grupos e pessoas dizem que não aceitam tais doutrinas e palavras pois foi "Roma" que as inventou e ludibriou dessa forma a todos os cristãos com seus erros.

Aqui por enquanto não tratarei sobre a Trindade. Para uma compreensão correta desta doutrina, recomendo o post do blog Pensar, do meu amigo Igor Miguel. Ele é o primeiro de uma série que está ficando muito boa! Por ora, tratarei sobre o nome "Deus", sua origem e porque podemos usar este nome tranquilamente.

Origem do Nome em Português


O nome "Deus" é derivado de uma antiga raíz da hipotética língua "indo-européia" (dos povos que formaram o povo europeu e indiano), Dyaus, que significa "claro", "brilhante". Era o nome de uma divindade suprema entre as tribos do Vale do Indo (região limítrofe entre a Índia e Irã), que era cultuado frequentemente com outro título anexo àquele, Pita, que significa "Senhor". Daí, "Dyaus Pita", Senhor do dia claro (ou céu claro). Hoje, restam ainda vestígios no Sânscrito (língua litúrgica hindu) deste termo como o termo para "deus", deva. 

Sabe-se que os gregos e romanos tem ligações linguísticas e étnicas muito antigas com estas tribos da Índia (chamadas de "indo-arianas"), este termo para seu antigo deus passou para o grego antigo nomeando a divindade suprema do Monte Olimpo, Zeus, divindade suprema dos gregos. Podemos ver esta derivação de "Zeus" da palavra Dyaus/Deva antigos naquela palavra declinada no genitivo grego, Dió, como em hiou Dió ("filho de Zeus"). 

Na antiga religião dos povos de Lácio (região próxima à Roma, de onde veio a língua latina) ocorreu a derivação de dois termos que também vieram claramente daqueles termos do indo-europeu e das línguas do Vale do Indo. O primeiro deles é o termo usado para nomear um de seus deuses, (D)ius pater, "(Deus) Pai (que habita os) céus". Este termo evoluiu depois para um nome próprio, "Júpiter", nomeando a suprema divindade do panteão romano, correspondente ao "Zeus" grego. O outro termo é o nome latino para nomear as divindades no geral, deus, que é a palavra-mãe da nossa "deus". Já no grego antigo, a palavra para "deus", theos, não tem relação com estas raízes antigas indo-européias como deva ou dyaus, mas vem de uma raíz grega mesmo que significa "iluminar".


Nem a Bíblia Escapa...




Pois bem! As pessoas que advogam tais opiniões relatadas no início podem ler isso tudo e dizer: "Estão vendo?! É verdade! 'Deus' é um nome que derivou de um nome pagão!". Isso mesmo! Você está correto. Aí respondem: "Então não vou usá-lo, por ser pagão!". Agora a resposta é que você está errado agindo assim. Por que? Porque, se formos seguir este raciocínio, não poderemos crer então na mensagem do Antigo Testamento e, quem possui uma bíblia hebraica em casa deve rasgá-la, pois ela está cheia de termos pagãos aplicados ao próprio Deus de Israel, e usados por Ele mesmo inclusive. A começar pelo nome mais simples que Ele usa para nomear a sua divindade em hebraico bíblico: "EL".


Indo para o Oriente Próximo: A História do "EL"


As palavras no hebraico para "Deus" ou "deus" - אלהים ('elohim) e אל ('el) são usadas mais de 8.000 vezes na bíblica hebraica para se referir ao Deus de Israel e - pasmem! - são todas de origem pagã! Por que? Porque eram palavras usadas por povos cananeus, antes mesmo que qualquer trecho das Escrituras fosse sequer escrito pelos hebreus, para designar o deus supremo de seu panteão, EL. Ele era pai de Ba'al, deus das chuvas e colheitas, e consorte de Asherá, deusa da fertilidade. Este termo, na sua raíz, significa "força", "poder", e era também o termo usado pelos cananeus para designar os deuses em geral por entender que eles eram as forças pessoais que governavam os mares, rios, plantas, ar, pedras etc. Só para lembrar: Abraão, o primeiro "monoteísta" conforme a tradição judaica, era arameu (da região de Aram Naharaim em hebraico, ou Mesopotâmia em grego). Ele, então, provavelmente falava acadiano, e não hebraico. Ah, outro detalhe: Adão não falava hebraico, ela não é a lígnua mais antiga do mundo ou "angelical", "edenica" (do Jardim do Éden) ou qualquer coisa assim. Ela só é a língua usada por Deus para revelar as Escrituras a Israel, porque este na época de Moisés falava hebraico, e nada mais além disso. Posso provar cada item aqui, mas isso daria outro post...

E agora, qual é o problema de se usar termos de origens pagãs na própria Bíblia, ou hoje, para designar o nome "Deus"? Ao meu ver, nenhum! Na Bíblia, por exemplo, os hebreus se utilizaram destes termos - que designavam as divindades pagãs - para designar ao Deus único num ato de redenção da cultura, querendo mostrar que Ele sim é o verdadeiro Deus (significado de "EL") e não o deus supremo do panteão cananeu ou as forças quaisquer da Natureza. Por isso que este termo, de forma isolada ou composta, aparece nos relatos de Abraão em Gênesis, já que ele habitara em Canaã e esta seria a terra prometida a sua descendência. Por exemplo, em Gn 23:33 há a expressão אל-עולם el-olam "Deus da eternidade", Gn 14:18 אל-עליון el-elion "Deus supremo" e Gn 35:7 אל־בית־אל el-beit-el "o Deus de Betel (da casa de EL)", todos nomenclaturas tradicionais de territórios ou centros de culto ao deus "EL", em Canaã, mas que agora estavam sendo dedicados ao Deus de Abraão, o verdadeiro EL.


Tudo recai sobre Constantino!



Sobre a alegação que Roma levou os cristãos a estes erros linguísticos, não há nada mais sem base! Não houve nenhum tipo de ação engenhosa de Constantino ou de qualquer autoridade romana - como o suposto plano de uso de nomes pagãos para designar ao Deus de Israel e dos cristãos - para colocar pagãos sob a nova fé do Império (a qual Constantino aderira no início do séc. IV). Pelo contrário, o nome "deus" em latim era a única palavra usada para se referir a alguma divindade, e por isso não seria diferente usá-la para se referir ao Deus supremo e verdadeiro. Da mesma forma ocorreu com os gregos, que desde séculos e séculos usavam a palavra theós para se referir a "deus" ou "divindade" (como os filósofos antigos) e, quando a Septuaginta e Novo Testamento foram escritos em grego koiné (língua do povo e do comércio), muitos gregos passaram a servir ao Deus de Israel lendo estas versões das Escrituras, e então "theós" passou a ser usado também para se referir ao nosso Deus de forma extremamente comum.

E o Judaísmo nisso tudo?



Alguns alegam também que os judeus tem usos peculiares de nomes dados a Deus, e por isso devemos imitá-los neste sentido, seguindo seus costumes "bíblicos" ou mais "próximos da verdade" na referência ao Senhor. Um destes costumes é a utilização de um apóstrofo na palavra Deus (ficando assim: D'us). Mas isso não seria uma forma deles de rejeitar este nome, mas sim deles consideram que nenhuma língua, nem mesmo o hebraico - a Língua Sagrada -, pode descrever quem Deus é, então eles "tiram" ou substituem uma letra nestes nomes por indicar isso. Por exemplo, judeus ultra ortodoxos não chamam Deus de "elohim" אלהים, mas de "eloqim" אלקים, por causa deste mesmo princípio. Perceba que essa idéia - de que o próprio nome "Deus" deprecia ao nosso Deus, alegada no início do post - sequer é concebida no judaísmo, sendo totalmente estranha e alheia a ele. Da mesma forma os títulos como o "Eterno" (ha'olam), o "Nome" (hashem), o "Infinito" (Ein-Sof) ou o "Lugar" (hamakom) são usados quase que exclusivamente por linhas mais estritas do judaísmo ultraordoxas e pós-iluministas, como os hassidim, que muitas vezes se referem dessas formas a Deus por causa de uma concepção mística, para não falar cabalística, sobre Ele, vendo-o  como incomensurável, infinito e sem contato com a Criação de forma plena ou direta, mas somente por intermediários angelicais ou sefirot. Acho que não há nada mais anti-bíblico ou anti-cristão, e até mesmo pagão (um tipo de gnosticismo judaico!) em concepções por trás de nomes aplicados a Deus!

Além do mais, os títulos "o Nome" ou "o Eterno" não dizem nada a respeito de Deus ou quem Ele é de fato, como ser divino. Não se referem a Sua divindade, e por isso não podemos usá-los como substitutos para "Deus" ou "divindade". Estas palavras no português estão aí para expressar estes conceitos de forma clara e que compreendida por todos, não precisando então importarmos do judaísmo - que sequer abomina o termo "Deus"! - outros termos que só dentro dele são inteligíveis, como "o Nome", "Hashem". Isso é descontextualizar uma cultura por outra, sem o menor motivo realmente sério ou estritamente necessário.

Como saio de um Sistema Pagão?

Na verdade estas pessoas, quando quererm deixar de falar "Deus", desejam sair de um sistema pagão e se aproximar de algo realmente mais bíblico e "correto". Mas, definitivamente, este não é o caminho correto para isso. Você deixar conceitos pagãos não é averiguar ou buscar raízes pagãs de termos que utilizamos hoje, pois eles só fariam um sentido "pagão" se o utilizássemos em seu contexto pagão. Mas se não estamos em tais contextos hoje, porque achar que são ruins ou que podem nos contaminar, como cristãos? Quem dá o significado ao símbolo - e a palavra é um símbolo visual, assim como as pinturas, artes e desenhos - é a sociedade e cultura nas quais eles estão imersos. Se estas mudam e se transformam, os símbolos e palavras se transformam, e não há "demônios" grudados nelas!

Para exemplificar o que é dito acima, vejamos um caso com o egípcio antigo. Na língua dos faraós, havia uma palavra para designar "vida", cujo símbolo está abaixo (figura 1, abaixo). Ele se pronuncia "'anekh" e, se quiséssemos falar "Deus vivo" em egípcio, falaríamos "netcher 'anekh" (figura 2). Uma expressão comum, certo? De uma língua que, apesar de estar morta hoje, era viva e tão usada há 3.500 anos atrás quanto o português hoje é usado por nós. Pois bem. Naquela época eu poderia usar, por exemplo, uma tabuinha com esta inscrição egípcia ("Deus Vivo") nas ruas ao lado do rio Nilo, para que todos vissem e todos me entenderiam perfeitamente. Mas, como as épocas passam e não temos mais a sociedade egípcia viva com este idioma, ninguém entenderia nada se fizesse o mesmo hoje lá no Egito. E, para piorar a situação, alguns grupos ligados à movimentos místicos não-cristãos utilizam este símbolo que significa simplesmente "vida" em egípcio antigo para simbolizar seus ideais de vida, concepções de ser e espiritualidade diferentes da minha. Um destes grupos é o neo-paganismo e os famigerados e complexos movimentos da Nova Era. Por isso eu não poderia utilizá-lo hoje: por causa da ligação com estes grupos, que como cristão não faço parte. Mas não porque é um termo "pagão egípcio" para "vida", ou cheio de "demônios" ligados a ele ou uma palavra que evoca demônios só por ser escrita, visualizada ou dita. 
"Vida" e "Deus Vivo" em Egípcio
Agora... com o que devemos realmente nos preocupar (digo como cristão)? Com os conceitos e idéias sobre família, indivíduos, natureza, vida social, razão etc que a Modernidade e Pós-modernidade tentam colocar no Mundo, e que estão colocando as coisas em desordem e nós, cristãos, não fazemos absolutamente nada. Não sou filósofo, mas entendo que essas coisas sobre estas áreas da vida humana são retomadas de concepções antigas dos gregos por exemplo, e que foram readaptadas pelo Humanismo na Renascença, depois no Iluminismo e hoje, na atualidade, são levadas às últimas consequências, como o culto ao egoísmo e individualismo, à razão humana autônoma como centro do nosso "Universo", o narcisismo e o ceticismo. Isso sim deve nos angustiar a cada dia e, principalmente como cristãos, deve ser aquilo que realmente nos preocupa para lutarmos contra e trazer as verdadeiras respostas a estes dilemas. Ministérios como o L'Abri, cujo um dos fundadores é o Pr. Guilherme de Carvalho, estão na vanguarda no combate a estas coisas que são a verdadeira ameaça aos cristãos e às suas mentes,  cativas em conceitos realmente anti-bíblicos e anti-cristãos. E isso não é feito combatendo-se palavras ou expressões que são "pagãs" e evocam demônios, e não a Deus, como estes grupos e pessoas advogam ai fora.

1 comentários:

  1. Unknown

    Obrigado por esse post, mto obrigado pois ele foi ferramenta do Senhor para me tirar de uma angustia, já não podia pronunciar a palavra Deus sem sentir mal. foi realmente de grande esclarecimento. a graça do Pai seja com vc.

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